Sabe aqueles inevitáveis momentos de silêncio que insistem em assombrar uma conversa? Tão inevitáveis como a chuva, dizem alguns; porém não tão difíceis de contornar quanto muitos pensam.
Há uma ótima cena – em um ótimo filme, diga-se de passagem – em que um casal recebe cartões temáticos ao sentar à mesa de um restaurante, para que iniciem uma conversa sobre o assunto enquanto esperam o prato ficar pronto. Genial, farei isso quando tiver o meu próprio restaurante.
Mas enquanto eu não abro meu humilde estabelecimento e encomendo os cartãozinhos continuo sofrendo de déficit de assunto, como qualquer outro mortal. Já tive idéias para combatê-lo, inclusive uma muito parecida com a do filme (que tive antes de vê-lo, para que vocês ainda achem que tenho um mínimo de originalidade): um programa que sorteava aleatoriamente uma pergunta pessal. “Qual a sua tirinha favorita?”; “Você fala assoviar ou assobiar?”; “Você se sentiria bem morando sozinho?”; “Você vem sempre aqui?”, ok, essa última foi uma piada. A pergunta que eu mais gostava era: “Conte-me algo que não sei sobre você”. Não é bem uma pergunta, é verdade, mas talvez seja mais importante do que todas que eu possa pensar.
Vou ser sincero, não bolei isso sozinho. Foi alguém que felizmente soltou essa frase em um hiato em uma conversa msnística. Confesso, não me veio absolutamente nada a cabeça. Não porque essa pessoa me conhecia profundamente, mas sim porque falar sobre si mesmo não é tão natural quanto deveria ser. E isso não se deve apenas à minha timidez, em maior ou menor grau todo o mundo sofre de uma repentina timidez quando se trata de revelar algum (geralmente insignificante) detalhe pessoal.
Duas grandes causas são a auto-preservação (“para que falar que gosto de kiwi se vão rir de mim?”) e a auto-depreciação (“minha coleção de selos não é interessante o suficiente para ser o assunto de uma conversa”). Isso é compreensível, porém mau. Vivemos em um mundo frio, cruel e cinzento, e por isso as pessoas geralmente tendem a se fechar cada vez mais. Mas se fechando cada vez mais elas contribuem para que o mundo seja ainda mais frio, cruel e cinzento; e então amigos ficam olhando para a tela do msn tentando achar alguma coisa para conversar.
É claro que há amigos e amigos. Não que os mais afastados mereçam nossa desconfiança, mas a vida trata de rapidamente nos ensinar que não é sábio dividir cada pensamento e acontecimento pessoal com o primeiro que aparecer. Prudência é necessário, é verdade, porém basta apenas um pouco de bom senso para falar sobre as coisas certas com as pessoas certas. Deve-se contar aquele mico homérico da sua infância apenas para os amigos mais próximos (se isso ainda te incomodar), enquanto o mico homérico do seu irmão mais novo pode ser disseminado com bem menos parcimônia. Repetindo, basta bom senso.
E o que ganhamos com isso? Ganhamos muito. Passamos a conhecer melhor as pessoas à nossa volta. Encontramos afinidades ineperadas (“Caramba! Ele também gosta de assistir jogos de râguebi neozeolandês, não estou sozinho!”), por exemplo. Mais do que isso, essa afinidade recém-descoberta pode um dia se tornar uma grande oportunidade na sua vida, imagina se ele um dia ganha ingressos VIP para um jogo? Presentear amigos nos aniversários também fica mais fácil, afinal agora você sabe que aquele seu amigo gostará de um massageador de cabeça coreano. Até mesmo encontrar alguma divergência de pensamento com seu melhor amigo é ótimo, afinal, quem gostaria de amigos que pensam exatamente como você? Eu não gostaria.
Para falar a verdade eu estou sentindo que o último parágrafo foi inútil. Para que diabos eu preciso enumerar as vantagens de conhecer melhor seus amigos? É bom porque é bom oras! Parafraseando um certo pequenino de pés peludos, eu não conheço metade dos meus amigos metade do que gostaria.
E você? Conhece seus amigos como gostaria? Seus amigos o conhecem como você gostaria que o conhecessem? Então, se a resposta for negativa, conte-me algo que não sei sobre você.